Aquela pontinha de esperança…

“A gente nasceu pra ser gente. Pra se expressar em plenitude e liberdade, com todos os talentos que o ser humano tem” (Lydia Hortelio, professora de música e pesquisadora, no documentário Tarja Branca)

Fonte: Redbubble

A primeira vez que ouvi essas palavras, tão simples e cheias de significado foi em uma aula da pós-graduação. Uma aula de produção audiovisual, mas sobretudo, sobre as mensagens que queremos passar com qualquer produção que faríamos a partir dali. São palavras do documentário “Tarja Branca”, que desde então, já perdi as contas de quantas vezes revi, sempre com uma lagrimazinha no canto do olho.

Hoje, mais do que em todas as vezes que assisti ao documentário, percebo o tamanho do significado que ele tem na minha vida. Não se trata apenas de imagens bonitas, de frases que sensibilizam, mas também e principalmente, da insatisfação que grande parte da sociedade sente em suas 8 horas diárias de trabalho. Não nos basta mais ter um salário no final do mês, pagar o aluguel e ter as contas em dia (sim, isso é muito importante e queremos pagar as contas!), mas precisamos de mais. Daquela sensação de estar fazendo parte de algo em que acredita. Algo que faça sentido pra nossa vida, nossos valores, nossos objetivos. Infelizmente, a verdade é que trabalhar com o que se ama é visto como um luxo, quase como se você estivesse querendo demais dessa vida. Mas acho tão injusto a ideia de ter que passar a maior parte do meu dia, fazendo algo que não acredito e não me traz prazer. De onde surgiu essa obrigatoriedade de fazer coisas para que o mundo funcione? Quero fazer coisas para que a minha vida funcione, e cheia de risadas, de conquistas, de obstáculos, mas que sejam minhas escolhas. E que no final do dia, ou ao menos de grande parte deles, eu tenha aquela sensação de que nada foi em vão, que fiz parte de algo que eu julgo importante.

Sim, eu sei que não é fácil. Assim como muitas pessoas, também não tenho uma vida que me permite simplesmente jogar tudo para o alto, viajar o mundo, me encontrar e viver da arte ou do que a natureza pode me dar (infelizmente). Mas eu tenho uma vida, e quero que ela seja mais do que bater o cartão todos os dias e fazer algo que não acredito.

Dia 31 será o último dia no meu trabalho atual. Depois de muitos “tapas na cara da vida”, e claro, me prevenir financeiramente muito antes, tomei coragem, pedi demissão e tenho à frente mil possibilidades, de coisas que me motivam, me fazem sorrir, dão aquela aquecidinha no coração. Pode ser que por mais que eu me esforce, tudo dê errado (não acredito em meritocracia, mas acredito que você pode, e deve conhecer os seus desejos e ir atrás de cada um deles). Pode ser que dentro de 1 ano, ou menos, eu precise aceitar a mesma profissão que tenho hoje e que estou abrindo mão. Mas não tentar, é uma frustração diária, que não quero mais sentir. Nosso corpo sente, grita, avisa quando está no limite. Cheguei nesse ponto, em que não tive outra escolha a não ser abraçar o que meu corpo e meu coração me dizia, insistentemente, em cada dor, em cada insônia, em cada lágrima.

Espero que cada vez mais, possamos tomar posse da nossa vida e dos nossos desejos. Que não sejamos os primeiros a nos boicotar, a chamar de “luxo” os sonhos, que são nossos por direito. A encarar o sucesso como algo de dentro pra fora, e que ele seja concretizado com aquele sorriso meio bobo no final do dia. E se nada der certo, ou se perceber que aquilo que buscava tanto, não faz mais sentido, que sejamos fortes, pra saber que a vida é um eterno recomeço, e que bom que podemos sempre nos reinventar!

“Se a pessoa não tiver como se destinar a algo que o move com uma intensidade maior, que a gente normalmente chama de paixão, a pessoa está fadada a uma existência muito mais austera e evidentemente menos feliz.” (Alberto Ikeda, etnomusicólogo, no documentário Tarja Branca)

 

Thalita Santos

Thalita Santos é especialista em Mídia, Informação e Cultura pela ECA/USP. Publicitária, aspirante a atriz e produtora cultural. Apaixonada por artes e por qualquer novo aprendizado que possa surgir.

Uma resposta para “Aquela pontinha de esperança…”

  1. LINDA, INTELIGENTE, DIVA, INSPIRADORA. VOCÊ PODE TUDO, SEMPRE! AMEI O TEXTO, QUE VOCÊ CONTINUE INSPIRANDO PESSOAS COM SEU JEITO DE SER E FAZER CADA COISA COM AMOR.

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