Cadeia tupiniquim e os conterrâneos de Nassau

Como todos devem ter acompanhado nas últimas semanas, foi deflagrada uma crise no sistema prisional brasileiro, com terríveis desdobramentos. Em meio a guerras entre facções, omissões do estado, discursos de ódio ou indignação, não cabe aqui esmiuçar todos os pontos desse complexo tear sócio-político. Mas há um fato que é consenso em qualquer análise que se faça: a superlotação dos presídios brasileiros. Já temos a 4ª maior população carcerária do mundo, atrás apenas de Rússia, China e Estados Unidos. Há estimativas de que se esse ritmo de crescimento do encarceramento no país se mantiver, em 2075 um a cada dez brasileiros estará atrás da grades. E o tráfico de drogas é a principal causa das condenações, responsável por mais de um quarto dos casos.

Ou seja, uma legião de pessoas privadas da liberdade, em condições péssimas, e que consomem recursos do estado, por fumar um baseado, ou qualquer coisa do tipo. E na grande maioria dos casos é isso mesmo, já que os verdadeiros grandes traficantes de armas e drogas estão bem soltos e negociando livremente, inclusive com os altos escalões de empresas e governos, em quase todos os países desse mundão todo.

Essa semana, o ministro Luís Roberto Barroso, do Supremo Tribunal Federal (essa instituição que nos últimos anos se tornou tão midiática, e muita gente sabe de cor até o nome de alguns ministros mais pop’s), em uma conversa com jornalistas, defendeu a legalização da maconha no Brasil, como uma solução para a crise prisional, e que a tal ervinha deveria ser tratada como o cigarro, com produção e venda reguladas pelo estado, e com campanhas de conscientização sobre o uso.

Por mais que o STF nos últimos tempos ironicamente venha sendo responsável pela maioria das decisões um pouco mais progressistas no Brasil, a declaração do ministro há de ter pouco efeito prático num país onde, na contramão dos países que costumamos chamar de primeiro mundo, cada dia mais se mistura política de estado com religião, a ponto de ter no legislativo uma “bancada da bíblia”, preocupada em criar projetos de leis moralistas, a despeito de uma cristandade bastante questionável. E nessa onda seguimos apontando o dedo moralizador para tudo o que o se considera “errado”, e decidindo, agora com a força da lei, o que cada um pode ou não fazer em relação a própria vida. E aí no lugar de avançar, tome-lhe retrocessos sobre a consumo de drogas, aborto, união homoafetiva, e até mesmo sobre transporte público, com as tantas  críticas sobre menos espaços na rua para os carros.

E nessa cruzada medieval pelos “bons costumes”, continuamos nosso galope  em direção à uma nova (mais uma) era das trevas, e nos distanciando cada vez de um país que é uma grande referência no respeito às pessoas: a Holanda, país onde uma série de coisas que  hoje o mundo todo tem discutido como novos caminhos, ou como o certo a ser feito, lá já é assim há décadas. Pessoas do mesmo sexo pode se casar há muito tempo. A prostituição é não apenas legal, como regulamentada. Se aqui ainda discutimos se trocar o carro pela bicicleta é coisa de petralha-comunista-comedor de criancinha, lá essa discussão já ocorreu no início dos anos 70, e hoje em dia todo mundo vai pro trabalho diariamente de bicicleta feliz da vida, faça calor ou frio.

E quanto à decisão de se consumir ou não algum tipo de droga, bem… Se algumas pessoas aqui nas terras brasilis pentecostalis se chocam com o fato de que lá é totalmente normal e cotidiano alguém entrar num bar ou café, e, em vez de pedir uma cerveja gelada ou malborão, pode pedir um cigarro de cannabis, o que pensariam sobre três jovens que fumam, bebem, cheiram, tomam várias drogas, e filmam tudo? Ah, e que são bancados pelo governo!

Trata-se de um canal no youtube chamado DrugsLab, que é financiado pela emissora pública BNN, e está no ar desde o ano passado. Nele Rens Polman, Nellie Benner e Bastiaan Rosman experimentam vários tipos de drogas, de acordo as indicações do público, e além de explicar sobre a substância, também descrevem os efeitos que sentem, num programa de educação e conscientização bem moderninho.

Algo certamente inimaginável por aqui, onde sempre querem decidir (e legislar) sobre os pulmões, úteros e cús alheios, e onde a mão de apontar e julgar chega a tremer à menor oportunidade.

Mas um dia sairemos (mas não ilesos) dessa neo idade média. Oremos.
Ou não.

Glauber Brasil

Glauber é graduado em cinema pela ECA-USP, sócio da Molotov Filmes e eventual fazedor de cerveja. Acredita que astrologia é balela, e que a a ironia é a única coisa que nos diferencia dos animais. Não confia em quem não gosta de café e cerveja, e quando não está pagando dívidas, está viajando ou juntando dinheiro pra próxima viagem.

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