Com que roupa eu vou?

Esses dias, de férias em Belo Horizonte, estava em uma praça de alimentação e me deparei com mais uma cena do cotidiano familiar. Mãe e filha – a menina com 9 ou 10 anos – discutindo. Fiquei bem atenta, pois percebi que o assunto me interessava bastante. Com toda a minha limitação auditiva, consegui ouvir a melhor parte do diálogo:

– Mas mãe, aquela roupa é de menino.

– E o que que tem, Luísa?

– Eu sou menina, ué.

– Para! Não existe isso hoje em dia mais. Roupa é roupa. Você usa o que sentir confortável.

Não pude evitar que um sorriso escapasse e entreguei que ouvia a conversa. Elas sorriram de volta e, mais que isso, acenderam uma chama gostosa de esperança no meu peito de que as coisas vêm mudando. Ainda bem! As crianças questionam, se impõe. Os pais são mais abertos, criam filhos com liberdade de escolha. E sem esse sexismo, o mundo tende a ser menos machista, menos preconceituoso, mais liberal e justo.

Depois de uns dias pensando, pude me atentar que não há coisa mais certa que a prisão em fomos criados. Digo isso por mim. Mulher, branca, nascida em condições razoáveis e criada no “modelo” da sociedade. Menina, rosa. Menino, azul. Menina, gosta e beija meninos e vice-versa. Meninas, se comportam como as mães ensinam. Meninos, se comportam como querem. Nunca questionei, enquanto criança, mas não aceitava aquelas imposições. E da minha forma, fui quebrando a ordem e desconstruindo isso em mim. Sempre gostei e entendi de futebol, F1, luta livre. Ia com meu pai ao Mineirão e com a minha mãe ao shopping, por que não? Minha cor preferida é o azul e não gosto de rosa. Não gostava de vestidos e ainda não gosto de saias curtas. A verdade é que nunca precisei de bordados, rendas e maquiagem para me sentir feminina. Não quis rótulos. Não quis ser outra, além de mim mesma. Posso mostrar o meu corpo, usar decote e isso não me fará promíscua; também posso me vestir coberta dos pés à cabeça, isso não me fará uma santa. Posso me vestir como um menino, isso não me fará menos mulher. Não preciso de uma roupa, de uma cantada barata, de um batom vermelho para me sentir mulher. Ser mulher vai além, muito além daqueles moldes prontos que a sociedade vende por aí. Não me enquadro em um padrão a não ser o que me faz sentir confortável. Em tantas roupas impostas pela moda “feminina”, vesti-me de mim mesma! Visto-me como eu quiser e como me sinto melhor. Mulher, filha, irmã, menina, namorada, companheira e de todas as outras que me couberem bem.

Lettícia Lages

Lettícia, estudante de jornalismo da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), metida à escritora. Apaixonada por música, fotografia, poesia, comida japonesa e cerveja. Adora escrever coisas aleatórias e sonha em abrir um bar. De BH para Ouro Preto, de Ouro Preto para onde o mundo me jogar.

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