Mãe Solo e Pai de Selfie

Como li por aí esses dias “metade de mim é amor, mas a outra metade é treta”, casa muito bem com meu estado de espírito atual.
Tá treta, mano, cuidar do pimpolho integralmente, e não, não tô querendo que me digam “bota na creche”, porque se eu escolhi cuidar dele e sacrificar um pedacinho da minha carreira e vida social, é porque acredito muito que o quanto menos eu puder terceirizar esse cuidado nos primeiros anos de vida dele, melhor pra ele, pra mim, pro mundo. E nada contra quem faz o contrário, essa sou só eu mesma, meu eu.
Mas tenho que falar, porque uma taça de vinho e algumas uvas na mesa me deram o start de botar pra fora as palavras meio ditas, o palavrão engasgado, tá PHODA.
Foi meio que assim…a gente se amava, os planos eram aqueles dos PRA SEMPRE, mas no meio do caminho veio uma gravidez. Um sonho antigo, mas que apareceu sem eu ter me preparado. Paguei um pau. Briguei comigo mesma, fiz duras críticas à minha pessoa, engoli todas elas e segui em frente, com o pai da criaturinha ao lado.
Então, num belo dia, quando a pança já não sustentava mais os jeans, o infeliz vem dizer que não tava preparado pra assumir uma família. Pera aí, e eu, tava? Tinha que estar, não tinha opção.


Fui em frente e a raiva virou força, e a força virou apego e hoje eu tô aqui sentada escrevendo porque o apego tá pegando. O mundo da me lembrando que o infeliz citado acima faz parte da história e que não tem alternativa na vida que não passe por ele. Não dá pra sair ilesa dessa.
O “pai de selfie” (um termo bonitinho e contemporâneo que achei por aí pra tratar do sujeito que cumpre com os desígnios da justiça e faz suas usuais visitas, sempre acompanhada de uma selfie – pro Face pirar de amor), tá mexendo com minha parte treta. Eu queria mesmo era falar uma meia dúzia, ou duas dúzias de palavrões tipo um vai foder, dar um tapa na cara e partir pra Italia conhecer o próximo amor da minha vida, mas não dá. Por isso eu resolvi escrever.
O Pai de Selfie (sorry, mas vou usar nome próprio mesmo), tá pouco ou quase nada se fodendo pra qualquer coisa que não seja o próprio umbigão. Diga-se de passagem o pós-cirúrgico que a mamãe aqui precisou de um help, cheia de pontos e o PS (abreviando), precisava das noites de sono tranquilas, afinal, ele trabalha. (Bom né?), relembrando também quando a mama solo adoeceu, deu um piripaque de tanto amamentar na madruga, as vitaminas se foram (é gente, não tem essa de “vici pricisi si cuidir” porque, na real, o tempo livre que sobra quando o rebento adormece, tu DORME PÔ! “Ah mas dá mamadeira pra ele” – Não dou! (ponto final). Aí tiveram pelo menos 654 vezes mais que a garotinha aqui pediu um help: ter um momento pra caminhar, ajuda pra pagar as compras porque apertou, o táxi porque não é mole andar com os meus quilos, os do bebê e os da bolsa cheia de tralha de bebê, teve tbm os dias pro supermercado, pros exames, pras madeixas mesmo, pro escorpião que quase pega meu tesourão, mas nenhuma dessas 654 vezes o PS podia, porque afinal, o bonitão trabalha com capital intelectual e não dá pra precisar que horas ele vai conseguir ter um insight criativo (AH SE FODER GRANDÃO)
Até hoje,são exatos 262 dias que eu não durmo mais que 3 horas seguidas, que eu não sei o que é namorar (isso já faz mais), social life reduzida, cicatrizes enormes, quilos extras, no money pra rolês diferentões, olhares reprovadores a uma mulher que pariu sozinha, enquanto o senhor cidadão, o PS, faz home office,faz os rolês bacanex, tem as roupinhas passadas pela mamãe, dorme quantas horas deseja por noite e por dia, posta foto bacanex pro povo ver que ele é paizão e ainda vive la vida louca. O mesmo que nunca deu uma roupa, um brinquedo ou passou um perreio com o baby.
Mas tem aqui desse lado também, muito, mas muito amor pela cria, daquele amor que sai pelos poros, aquela entrega linda, aquele acordar sentindo cheirinho e dormir sentindo calorzinho de filho, aquele ver cada nova evolução, o olhar de amor e as gargalhadas altas, as sintonias, a possibilidade de ir e vir com o “biscoitinho” pra onde eu bem desejo… Por isso, bem por isso, metade é amor e metade é treta.
Agora vem a fase 2. O PS quer ter os mesmos DIREITOS, mas nunca quis os mesmos DEVERES. A bonita aqui, ora a Deus pedindo ajuda pra aprender a dividir o tesouro que teve que arcar sozinha, ainda que tivesse liberado todos os dias a visita do pai (sabendo da importância emocional pro bebê), ainda que tivesse subido e descido morro com bebê e bolsa nas costas pra levar pro cidadão participar um pouco mais com sua família…
Agora o que a gente faz? Ora over and over again, pede assembleia com as bests pros conselhos bacanas, tô quase pedindo um #ajudaluciano, mas na falta de saber o que fazer nz real, escrevo mesmo, porque o que não é dito é sentido, então sai de mim, que aqui não é morada boa não, aqui estamos sem verba pra ódio, rancor, mas tamo com financiamento coletivo pros amigos que ajudam, pra família que tá do lado apoiando, pros vizinhos que socorrem, para os convites pras terapias de grupo de mães solo, qualquer coisa do tipo. Aqui, não importa a bandeira, camarada, a maquininha passa tudo, tudo de bom.
Por hora, o que temos é a boa taça de vinho quase finalizada, o sentimento de desabafo com o sinalzinho de ok, o bebê cheiroso dormindo lindamente, o unfriend no Pai de Sefie porque mamãe precisa parar de se chatear com as fotos de pai do ano e seguir em frente e ah, a moça da sobrancelha me agendou um horário. É o que temos pra hoje, tá pra lá de bom.
Autor: Desconhecido

Cristiane Duarte

Cristiane Duarte, 36 anos e caiçara de Ubatuba. Social Media por amor e conectada no mundo digital o tempo todo. Adora viajar, comer, praia e Netflix com pipoca.

Um comentário aleatório