Minha herança: uma flor

Nessa vida acostumamos com – quase – tudo. Acho que é assim com todo mundo. Desde muito nova tinha a consciência de que meu pai e minha mãe não formavam um casal perfeito, mas no fundo tinha a esperança de que ficariam juntos “para sempre”. Bom, não foi bem assim. Antes do meu 13º aniversário, meus pais se separaram e aprendi a conviver com aquilo, desde então.

Os anos se passaram e meus pais refizeram suas vidas, cada um independente do outro, com rumos e histórias diferentes. Meu pai casou-se novamente há 3 anos. Apesar de sempre ter tido convivência pacífica com ambas as partes, de 2 anos para cá, meu pai e eu não conversávamos mais. Até o dia em que ocorreu na minha vida um fato inédito e mais que isso, inesperado.

Soube pela boca de uma prima que meu pai seria “pai novamente”. Sim. Depois de 23 anos – até então, eu era a caçula da história – meu pai teria outro filho, com outra mulher.

Confesso, meu mundo caiu – estilo Maysa. Fiquei triste, um pouco frustrada. Afinal, eu sempre fui e sempre seria a princesinha, filhinha do papai. A princípio torci muito para que fosse um homem. Primeiro, porque meu pai sempre quis ter um filho e segundo, meu posto de menininha do papai continuaria ali, mesmo sem nos falarmos.

Os meses passaram e vez ou outra recebia notícias do tal neném que estava para chegar. Para a minha surpresa e decepção, soube por fim, que era uma menina e que se chamaria Júlia. Indignada, me recusei a entrar em contato com ele ou querer saber mais alguma coisa sobre. Só conseguia pensar: perdi meu posto, não quero saber.

Com o tempo e com algo que não sei explicar, a raiva, a indignação e qualquer outro sentimento ruim, se transformaram, primeiramente, em curiosidade. Os pensamentos foram mudando e algo bom tomando conta de mim. “Como será que essa menininha vai ser, hein?”, “Será que vai ter algo meu?”, me questionava. Os dias foram se prolongando e eu decidi que procuraria o meu pai para saber sobre esse bebê que viria ao mundo.

Em meio aos papos longos e tentativas de reconciliações, sugeri, despretensiosamente, que a menina se chamasse “Maria Flor”. Voltei para BH e sempre que tinha oportunidade de falar com ele, perguntava sobre a neném. Até que um dia, meu pai me mandou uma mensagem dizendo que neném iria nascer em maio e que sim, se chamaria Maria Flor.

Desde então, senti que me fiz pertencente a vida daquela criança que nem tinha nascido, mas que já era muito amada. Não houve dentro de mim nenhuma dúvida: tinha acabado de ganhar uma irmã mais nova e poxa, que sentimento maravilhoso!

Mandava mensagem para o meu pai insistentemente até o dia em que ela nasceu. Foi uma sensação que não consigo explicar até hoje, uma incrível mistura de sentimentos. Minha vontade de chorar era proporcional a de dar gargalhadas e contar ao mundo sobre o nascimento da minha irmã. Sempre fui a mais nova da casa e por quase 23 anos foi assim. Mas agora é diferente, tudo mudou. Apesar de saber que nossa convivência não será intensa, como foi com a minha irmã mais velha, a sensação e experiência são únicas.

Por muitos meses pedi explicações para tudo isso que aconteceu. Mas há certas coisas na vida que, por mais respostas que procuramos, não conseguimos entender. Então, mesmo com quase 600Km nos separando, quando recebi uma foto, momentos depois do nascimento, fiquei olhando para o rostinho dela, reconhecendo um pedaço meu ali e toda a explicação que pedi durante esse tempo todo foi desnecessária.

Lettícia Lages

Lettícia, estudante de jornalismo da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), metida à escritora. Apaixonada por música, fotografia, poesia, comida japonesa e cerveja. Adora escrever coisas aleatórias e sonha em abrir um bar. De BH para Ouro Preto, de Ouro Preto para onde o mundo me jogar.

3 respostas para “Minha herança: uma flor”

Um comentário aleatório