Voa, menina!

Ninguém nasce sabendo. Isso é sobre os primeiros passos, quando somos bebês, e também é sobre caminhar com as próprias pernas, buscando a tão sonhada independência. Nós, muitas vezes, somos guiados pelo instinto e nessa busca incessante, acabamos por aprender as coisas naturalmente. Quando saímos da casa dos nossos pais, por exemplo, mesmo que na marra, aprendemos a lidar com certas coisas sem muita ajuda. Outro dia mesmo, li em um texto que “morar sozinho é uma arte sem escola”. É bem por aí mesmo. Quem nunca desejou sair debaixo das asas dos pais? Qual adolescente nunca fez o plano para quando fosse finalmente morar sozinho? Ouvi incontáveis vezes, desde que me mudei, a seguinte frase: “nossa, você mora sozinho, deve ser muito legal, né? Deve rolar várias coisas”. Confesso, é incrível mesmo. Mas há algo por trás desse acontecimento tão marcante na vida de cada um que resolve bater asas por aí.

Saí de Belo Horizonte aos 21 anos e cheguei em Ouro Preto um pouco “crua”, como dizem por aí. Me virava bem e, mais que isso, sabia que de fome não morreria. Minha mãe nos criou – duas mulheres – muito bem, modéstia parte. Cozinhar, arrumar casa, lavar e passar roupa, trocar lâmpada, pagar contas no banco, sei de tudo um pouco. Nos ensinou do básico ao mais complexo dever de uma pessoa adulta. Nos ensinou também a dialogar, decidir as coisas de cabeça fria e ter muito, mas muito, jogo de cintura. Tudo bem, não moro exatamente sozinha. Moro com mais algumas meninas que se tornaram a minha segunda família, laços fraternos de amor, amizade e companheirismo.

Longe do “hotel 5 estrelas da mamãe”, que estava acostumada, aos poucos fui aprendendo a levar uma casa “sozinha”, até que me deparei com alguns sentimentos – até então, desconhecidos. Viver não vem com manual de instrução. E foi exatamente assim que me falaram. Quando somos jovens, não entendemos certas coisas, pois temos os nossos pais ali para explicar, nos conduzir, nos fortalecer. E quando os pais não estão mais ali, pelo menos não fisicamente falando? Você aprende a enxugar suas lágrimas sozinha. Aprende que a saudade pode doer bem mais que um “corte na perna”. Você lida com seus problemas de uma maneira muito mais forte, do que antes. Aprende que os domingos podem ser bem solitários ou mergulhados em uma porção de livros, cadernos e “toda aquela matéria que você deixou acumular ao longo do semestre”. Aprende que tem que estudar sozinha, sem mamãe berrar. Que existe muito mês para pouco dinheiro. As comidas acabam, sabia? Vai me dizer que nunca pensou que a geladeira e o armário se enchiam sozinhos? Agora você entende quando seus pais diziam “Economiza luz, economiza dinheiro. Damos um duro danado para você ficar jogando dinheiro para o alto”. Você percebe que cada detalhe que eles diziam era para o seu bem e que as incontáveis vezes que os fizemos ficar sem dormir, a preocupação é real. Porque o mundo lá fora é real. E, por mais que meus pais sempre nos criaram para o mundo, nunca estamos preparados para realidade. É um choque! Ser forte, matar um leão por dia, correr atrás do prejuízo, ser competente, ser adulto, levar uma casa, conseguir emprego. Isso é verdade, gente. Não é conversa fiada dos pais não. E sabe aquela velha frase “você só dá valor quando perde”… então, grave muito bem. Depois que você sai de casa, as coisas mais simples são as que valorizamos mais. O arroz com feijão da mamãe, a cama limpinha, as roupas lavadas e devidamente passadas, chegar em casa e ter um colo, uma palavra de conforto, um carinho. Estar longe do colo da mãe é uma tortura danada. Hoje mesmo, liguei para minha mãe só para dizer que estava cansada. Pode isso? Claro que pode. Ela me criou para o mundo, mas o mundo me criou para ela. E por fim, depois de alguns anos fora do ninho, você percebe que bater asas, cair, voar mais alto, constituir outra família, tudo isso te faz mais forte, mas que não há nada que te fortaleça mais que voltar para o ninho e encontrar os seus.

Lettícia Lages

Lettícia, estudante de jornalismo da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), metida à escritora. Apaixonada por música, fotografia, poesia, comida japonesa e cerveja. Adora escrever coisas aleatórias e sonha em abrir um bar. De BH para Ouro Preto, de Ouro Preto para onde o mundo me jogar.

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