Uma terça-feira qualquer

Uma terça-feira qualquer, 08h da manhã. O mundo segue seu ritmo frenético de sempre, mas eu estou parada no tempo em uma viagem nostálgica da minha infância, na casa onde cresci e passei os melhores anos da minha vida. Observando uma das cenas que há muito tempo não via, minha avó se mexendo pela cozinha como se pertencesse a esse lugar desde sempre.

Essa mulher que me ninou quando ainda era um bebê, que me pegou no colo mais vezes que posso contar, que fazia de tudo para criar as comidas que eu mais gostava, que do seu jeito simples e forte ao mesmo tempo me ensinou lições tão poderosas que acho que nem ela se dá conta disso. Que apesar dos problemas continua com um sorriso no rosto.

Na verdade, me considero uma pessoa extremamente sortuda por ainda ter meus avós vivos, avô e avó por parte de pai e uma avó por parte de mãe. É aquele tipo de milagre que a gente não se dá conta até o momento que percebemos que podemos perdê-los.  E nesse dia, tive a vontade de simplesmente sentar e observá-los. Só olhar. Só perceber.  Então me dei conta de quanto eles são preciosos e de quão pouco eu falo isso para eles.

Eles passam aquele tipo de lição que não se aprende por falas intermináveis de moralidade, mas por cada exemplo, por cada gesto, cada atitude. Eles não são grandes intelectuais, não fizeram faculdade, nem pós-graduação, nem mestrado no exterior. Não comandaram grandes empresas e nem têm livros publicados por ai. Mas eles possuem aquele tipo de sabedoria que só quem viveu intensamente consegue ter.

De repente, me dei conta que por trás daqueles pés cansados, das dores no corpo inteiro, da dificuldade no caminhar, daqueles olhos que viram mais do que eu possa imaginar, existem pessoas que enfrentaram tudo que a vida jogou para eles e venceram. Pessoas que possuem uma história inteira por trás daquelas linhas de expressão no rosto.  Pessoas que eu me orgulho de fazer parte da família.

Que me mostraram que por mais que a situação seja insuportável um sorriso no rosto é sempre bem-vindo. Que tudo dá certo no final e que se não deu certo é porque não chegou o final. Que por mais que você não queira é sempre bom levar um casaco, porque, sim, vai fazer frio. Que comer sua comida favorita cura qualquer doença. Que cuidado se mostra muito mais por gesto do que por palavras.  Que ficar no colo de quem você ama e ser abraçada por ela é o melhor remédio para qualquer tristeza. Que a vida é dura, as vezes injusta, mas que é preciso continuar caminhando, cada passo por vez.

Então, só de observá-los pude perceber o quanto me moldaram na pessoa que sou hoje. O quanto sou grata por cada lição aprendida, mesmo eles não sabendo que estiveram me ensinando esse tempo todo.  Mas espero que saibam que, por mais que eu não fale sempre, que por trás da sabedoria do olhar de cada um deles eu pude compreender um pouco mais dessa viagem doida que é a vida.

Rafaela Moyses

Rafaela Moyses, Bacharel em Relações Públicas, nerd de plantão e amante de livros. Apaixonada pela arte de ler e escrever, busca nas palavras o refúgio da vida.

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