A expectativa nossa de cada dia

Fonte: Touts

Sou daquelas que acredita que grande parte das nossas dificuldades diárias de lidar com a vida, existem graças àqueles traumas de infância que nossas mães e pais deixaram como um brinde querido à nossa vida adulta.

Aquela dificuldade em socializar, em acreditar em si mesma, em acreditar que você é sim capaz de fazer algo, mesmo que seja algo bobo, como lavar sua própria roupa (e deixá-la incrivelmente limpa e cheirosa), como fazer seu próprio almoço ou conseguir pagar todas as suas contas no final do mês, e ainda se dar ao “luxo” de comprar uma bolsa nova.

Aquela vontade insistente de cuidar (e controlar) a vida do outro. Como se isso fosse possível e saudável. Aqueles “toc’s” clássicos de nunca deixar louça na pia, ou de sempre arrumar sua cama pela manhã.

Demora um tempo (um longo tempo. Talvez uma vida inteira) pra perceber o que de fato cabe hoje na nossa vida, e o que não nos pertence.

“Não durma depois 22h”, “não coma bacon”, “não ande com os pés descalços”, “não diga não quando alguém te oferecer algo”. Já paramos pra pensar em tudo o que deixamos de fazer ou fazemos, não porque queremos, mas porque em algum momento, isso foi colocado em nossa vida como supostamente certo ou errado?

Não estou dizendo que todos os nossos problemas são culpa dos nossos pais, ok?! Mas que eles, em sua preocupação (muitas vezes excessiva) de nos fazer crescer saudáveis, educados, daqueles adultos que os amigos chegam neles e dizem “nossa, sua filha é mesmo maravilhosa, não?”, acabam criando uma expectativa em nós, muitas vezes desleal e sufocante. Nunca seremos como eles desenharam, sonharam e se esforçaram para sermos. Porque crescemos, e ainda bem, vamos criando nossas próprias vontades e precisamos (muito!) perceber o quê, de tudo o que aprendemos na infância deve ficar, e o quê não nos cabe mais. Porque precisamos aprender a andar com nossas próprias pernas, e aprender com nossos próprios erros o que é o nosso certo ou errado. Não o certo/ errado que cabe para o mundo, mas aquele que cabe pra nossa vida, mais especificamente, para aquele momento da nossa vida, afinal, estamos mudando o tempo todo!

O mais engraçado disso tudo, é que muitas vezes, não percebemos a expectativa que nós também colocamos em nossas mães e pais. “Esteja disponível sempre que eu precisar de colo”. “Sempre me ensine algo”. “Sempre me compreenda e me aceite como sou”. “Seja sempre carinhoso”. “Nunca, jamais, erre como ser humano”. Será que já paramos pra pensar em como também deve ser sufocante, e muitas vezes, injusto, tudo o que esperamos que eles sejam o tempo todo?

Sim, eles vão errar. Vão nos magoar, e muito! Vão nos colocar traumas de infância, e depois de adultos. Eles vão errar como seres humanos, vão ficar doentes, vão magoar os vizinhos e os amigos. Eles também vão pedir ajuda (ou às vezes não, e precisaremos perceber que estão precisando). Eles não estarão ali sempre que precisarmos, mesmo que estejam morando na mesma cidade. Isso porque eles são tão humanos quanto eu e você. Têm tantos defeitos, dificuldades e traumas como nós.

Criar expectativa é natural e humano. Mas é tão bom quando percebemos o mal que ela nos faz. Mais importante do que esperar que o outro (filho, pai, mãe) seja como imaginamos e queremos, é aceita-lo com todos os seus defeitos e carências. E amá-lo, apenas. Sem cobranças, sem exigências. Não estou dizendo que é fácil ou que eu super consigo aplicar isso na minha vida! Afinal, somos humanos, e vamos errar todos os dias da nossa vida. E vamos tentar acertar e melhorar todos os dias também. Acho que o dia a dia vai ficar mais fácil quando aprendermos a apenas “ser”, e quando percebermos que o mais importante é aquele abraço apertado, acompanhado daquele sorriso silencioso.

 

 

Thalita Santos

Thalita Santos é especialista em Mídia, Informação e Cultura pela ECA/USP. Publicitária, aspirante a atriz e produtora cultural. Apaixonada por artes e por qualquer novo aprendizado que possa surgir.

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