BERLIM: Cativeiro, zona de guerra e bons cafés

Knock! Knock!

Com licença. Posso entrar? Espero não estar atrapalhando. E não se preocupe, pois não vou reparar na bagunça, mas aceitaria um cafezinho com muito agrado. Eu sou o Ivens e estou muito empolgado em poder compartilhar algumas das minhas experiências e tudo mais que passar pela minha cabeça por aqui. A partir de agora, você, meu caro leitor, será meu companheiro em minhas viagens (físicas e filosóficas) aqui no Conteúdo Aleatório.

 

Estava muito frio, céu completamente coberto por nuvens. Só pudemos sentir o vento ridiculamente forte nos empurrando quando saímos do aeroporto Berlin Tegel. No ônibus em direção ao centro, pude contemplar a cidade que ia se formando no caminho e por um instante tudo aquilo me lembrou São Paulo: prédios que iam até o fim do horizonte, grafites, pessoas apressadas e aquele murmúrio de zilhões de carros e sirenes que completam a trilha sonora de qualquer grande cidade. Em minha primeira visita à Berlim, eu trazia em minha pequena bagagem nada além de algumas peças de roupas e muitas expectativas. Para muitos, Berlim é a definição de tudo o que você pode querer de uma metrópole e eu estava lá para tirar a prova disso.

Éramos em 5, sendo eu o único brasileiro. Julia, minha amiga alemã, conhecia a cidade melhor do que ninguém do grupo, então eu não me preocupei quando ela disse que ficaria em cargo de reservar o nosso Airbnb. Porém, meu sensor-aranha começou a apitar quando chegamos no endereço indicado pelo booking. Entre prédios bem antigos, uma viela escura e macabra levava a entrada do edifício. “É aqui que vamos morrer” alguém disse enquanto entrávamos no prédio. Quando abrimos a porta do apartamento, todos em silêncio. Cinco camas de solteiros dentro de uma pequena cozinha e um banheiro onde as paredes não iam até o teto. É assim que eu melhor posso descrever aquele lugar. Ah! Sem mencionar os quadros bizarros pendurados nas paredes. Tudo parecia limpo, mas longe de ser o lugar que vimos nas fotos.

E aqui vai a primeira dica: muito cuidado quando for reservar qualquer Airbnb, melhor referencial são as reviews de prévios residentes. Muitas vezes preços baixos e fotos bem tiradas podem ser os atrativos perfeitos de uma cilada. Nós ficamos na região de Mitte. Mesmo sendo uma região central, Mitte oferece preços acessíveis e uma infinidade de restaurantes de beirute.

Era véspera de ano novo e a cidade fervilhava. Segundo Domenic, meu outro amigo alemão, o melhor lugar em Berlim para se estar na virada seria Alexanderplatz. Com intensa queima de fogos, o lugar parecia mais uma zona de guerra. Não vou mentir, aquilo tudo foi muito divertido e lindo de se ver, mas teve segurança zero. Qualquer um podia soltar fogos de artifícios, já que a venda desses artigos é liberada em mercados por lá. Várias vezes fogos explodiram a centímetros de nós. No final da noite, meu casaco cheirava a pólvora. Se você quiser ver isso com seus próprios olhos, leve óculos de segurança ou pode voltar pra casa sem eles. Luvas também são importantes, vi muita gente queimando as mãos tentando soltar os fogos.

Berlim estava literalmente pegando fogo. Lá pra uma da manhã, e depois de devorar um hambúrguer intercalado com champanhe, chegamos em uma festa que estava rolando dentro do Cinema Kino International. Estava tocando de tudo um pouco: 80s, 90s, de Despacito até Taylor Swift, mas foi só quando o DJ tocou ‘Na sua cara’ que eu percebi o quanto de brasileiros estavam ali presente. A noite acabou um pouquinho antes do sol nascer. Eu, o mais sóbrio (ou o menos bêbado) carregando meus amigos dentro do metrô de volta ao nosso sinistro Airbnb, que carinhosamente apelidamos de ‘o cativeiro’.

Na manhã seguinte, antes mesmo do primeiro sinal de dor de cabeça aparecer, encontramos a Distrikt Coffee (@distriktcoffee). Uma cafeteria hipster, com baristas que mais parecem modelos da Urban Outfitters, Tom Misch de soundtrack e fila de espera de 30 minutos. Um achado! Uma das primeiras coisas que sempre busco quando visito uma cidade pela primeira vez – antes mesmo de museus, pontos turísticos e afins – são boas cafeterias. Eu amo café! E Distrikt Coffee era uma delas. Pratos dignos de food porn e um latte que me salvaria daquela primeira ressaca do ano.

Voltando para o aeroporto eu estava feliz pois não ia dormir no cativeiro novamente, mas ao mesmo tempo tive aquela sensação de ‘quero mais’. Foram dias memoráveis, saindo de festas com o nascer do sol como plano de fundo e muitas vezes saindo da cama ao cair da noite, curando ressaca com bom café e vodka barata. Assim demos boas vindas a 2018. Berlim é uma cidade enorme, cosmopolita, viva e intensa. E apesar do clima não ter ajudado muito durante os cinco dias que ficamos por lá, a cidade se mostrou surpreendentemente amigável e sempre pronta para festejar. Festa para todas as tribos, festas para todos os gostos. Com certeza você vai fazer novos amigos e definitivamente terá histórias hilárias para contar quando voltar de lá.

Ivens Ribeiro

Ivens Ribeiro. Publicitário, designer gráfico e aspirante a filmmaker. Há mais de 3 anos vivendo na Irlanda e explorando o mundo nas horas vagas.

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